sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Impactos Sociais, Econômicos e Ambientais de Belo Monte



Tenho consciência de que os laudos técnicos, pesquisas e estudos desenvolvidos pelo IBAMA, Ministérios de Minas e Energias, Annel e outros órgãos relacionados possam ser tendenciosos porque corroboram com a vontade do governo, informando à sociedade números impressionantes e positivos. Bem sabemos também que políticos podem tirar proveito do empreendimento, assim como ocorre em várias situações.


Não tem se falado ainda em “empréstimos externos”, como fora feito em Brasília, e sim que a viabilidade econômica do empreendimento dependeria de isenções tributárias, créditos subsidiados e fortíssima participação de empresas estatais e de fundos de pensão. A proposta de Brasília era similar, e é interessante fazer esse paralelo. Brasília foi projetada com a idéia de transferência da capital (RJ) para o cerrado brasileiro e se falava claramente em “explorar riquezas” da região central do país (hoje se tem um cuidado maior com o termo “exploração”). Ainda temos um grande ranço com relação à construção de Brasília ao pensarmos no elevadíssimo endividamento do Estado, no inicial isolamento do poder e no esvaziamento econômico-político provocado no Rio de Janeiro a partir de então. Se por um lado alcança-se parte do objetivo almejado: alavancar o desenvolvimento do centro-oeste, por outro, cria-se a "ilha dos caras" ao deslocar a capital para longe do centro demográfico de maior concentração populacional e talvez de maior pressão política sobre os governantes. Após 50 anos de Brasília, algumas coisas pioraram (surgimento de bolsões de pobreza, corrupção, violência – fenômenos inerentes às cidades que crescem, haja vista Florianópolis), mas há aspectos positivos (empregos – de vários níveis, diversidade cultural, fortalecimento do Estado em detrimento do capital, etc.). Mas Brasília seria outro tema a ser discutido futuramente.

O fato é que estamos realmente à beira de um colapso energético e precisamos pensar em energias limpas. O que seria mais viável que a energia hídrica para sustentar esse nível de energia que precisamos? A eólica? A solar?



Quanto ao impacto social, algumas matérias escritas ou televisionadas estampam as barbáries que acontecem no mundo dos ribeirinhos, indígenas e populações que vivem no interior da Amazônia. Desde trabalho escravo, exploração de todas as formas e espécies que possa imaginar à atuação de grileiros que expulsam o pequeno agricultor com filhos e quem quer que seja à base de armamento pesado e, caso neguem-se a sair da terra, são assassinados e o poder público (polícias) sequer averigua o que aconteceu, sequer tomam conta de suas existências. Ou seja, uma ocupação da terra na base do “faroeste”. Essas famílias expulsas se instalam nas grandes cidades amazonenses, criando grandes “bolsões de pobreza”. Para ilustrar a situação, de acordo com dados do IBGE, em 2009, 42% da pobreza (pessoas vivendo em condições sub-humanas de extrema miserabilidade) se concentrava na Amazônia e, como conseqüência da miserabilidade: a violência, as drogas, a prostituição, os assassinatos.


É muito romântico ver reportagens mostrando as belezas da Amazônia, os índios pintados, os ribeirinhos brincando nas águas. Mas a realidade é nua e crua! A prostituição infantil avança nos rios e nas cidades da floresta. Uma terra totalmente sem lei, onde as crianças pobres – inclusive indígenas – são vítimas de exploração sexual e trabalho escravo. As informações só chegam graças à atuação de auditores do trabalho, Ministério Público, ONGs, jornalistas e cidadãos que não tem medo de morrer ao colocar a “boca no trombone”. Portanto, é plausível pensar que um investimento na região, além de trazer segurança energética e desenvolvimento pode vir a ser positivo para a região, já que se presume maior atuação do poder público.


Confesso que tenho receio do que possa ser causado à natureza, ao meio ambiente, em decorrência de uma ocupação desordenada, o que é uma regra no país. Mas acredito que se houver atuação imparcial (eu sei, utopia), mas então uma maior fiscalização e cobrança por parte da sociedade com relação ao poder público, esse investimento poderá ser benéfico às populações que já vivem literalmente à margem da sociedade nessas regiões.

O açodamento político é suspeito, é bem verdade – o que nos deixam com os “pés atrás” – mas penso que para o país, a construção da usina representará maior independência econômica – que significa mais crescimento, mais emprego e mais investimento em ciência e tecnologia. Ademais, não estamos falando de investimento privado (de empresas estrangeiras, multinacionais ou mesmo as brasileiras), estamos falando de investimento estatal.

Certamente, a região atrairá a migração de muitas pessoas para as regiões em torno da usina, pela expectativa de emprego, mas o que deve ser cobrado nesse momento é o planejamento da ocupação da terra. Será preciso investir em infra-estrutura, saneamento básico, moradia etc. Se houver responsabilidade sócio-ambiental, repito, poderá ser positivo para todos. Será um círculo virtuoso de desenvolvimento – assim espero! ;)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O Impasse do desenvolvimento: usina hidrelétrica de Belo Monte



A possibilidade de construção de uma usina hidrelétrica na bacia do Rio Xingu, localizada nos estados brasileiros do Pará e Mato Grosso, vem sendo estudada há mais de trinta anos. Tanto tempo, deveu-se naturalmente, à complexidade de tal empreendimento. O tema tem se mostrado bastante controverso e fruto de debates interessantes, recheado de verdades e mitos, além de muitas preocupações.

A efetiva viabilização para a construção da Usina Hidrelétrica Belo Monte se deu em 2010 e vem se arrastando desde então, gerando paralelamente opiniões divergentes por parte de toda a sociedade quanto aos possíveis impactos à região, tanto positivos quanto negativos.


Os dados apresentados impressionam: Belo Monte será o maior empreendimento hidrelétrico feito apenas pelo governo brasileiro; representará uma das três maiores usinas hidrelétricas do mundo e a segunda maior do Brasil. De qualquer forma, não apenas os superlativos supracitados mostram-se positivos para a imagem do empreendimento. Estima-se que serão criados aproximadamente vinte mil empregos diretos e mais de vinte mil, indiretos. Sendo assim, geraria expressivo desenvolvimento socioeconômico para a região amazônica, o que tenderia a reduzir abismos sociais em uma região em que a pobreza e o desemprego imperam há muitos anos e condições degradantes de trabalho representam a regra. Outro forte argumento favorável à construção da usina é o de que Belo Monte trará maior segurança energética ao país, evitando os temidos “apagões” – a exemplo do que ocorrera em 2009 – além de proporcionar maiores investimentos em outros setores industriais, que não somente a agroindústria.

O Brasil está em ritmo acelerado de crescimento e ainda assim, somos expressivamente um país exportador de produtos primários, altamente dependentes do mercado externo. Uma maior independência econômica poderia acontecer investimento em outras áreas da economia, para tanto, precisamos de energia.


Em contrapartida, há um temor muito grande, principalmente por parte de ambientalistas e indígenas, quanto aos impactos negativos que a construção da usina possa trazer a região. Coloca-se em pauta a possibilidade de que Belo Monte não apresentaria sustentabilidade para ser construída e de que a área alagada pela usina prejudicaria vários povos indígenas, ribeirinhos, além de trabalhadores que vivem da agricultura familiar, pois necessariamente serão expulsos para outras áreas; além, é claro, o receio de que cause danos irreversíveis à fauna e à flora da região. 



Ao considerar que o desenvolvimento de um país é, ou deve ser, um processo inerente ao mesmo, lembro-me de uma máxima: “as pessoas são resistentes às mudanças”. O que é muito compreensível, dadas as incertezas quanto aos impactos de um empreendimento tão colossal, como é o da Usina Hidrelétrica Belo Monte. Entretanto, é importante mencionar que antes mesmo da confirmação da construção, foi desenvolvida uma série de programas, planejamentos e projetos ambientais que propõe um conjunto de ações para minimizar os impactos negativos e majorar os positivos, buscando assim, um desenvolvimento sustentável.


O fato é que provavelmente, mais cedo ou mais tarde, ocorrerá a construção de Belo Monte. Espera-se que o conjunto de atos – por parte do governo e das empresas envolvidas na construção – preocupados e comprometidos com as questões sócio-ambientais seja viável e se concretize no decorrer da construção, trazendo assim, não apenas o desenvolvimento sustentável esperado, mas principalmente, responsável.






terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Atenção estagiário: estágio como forma de fraude trabalhista



Muitas empresas contratam jovens na função de "estagiário" com o intuito de burlar a lei trabalhista. Procure conhecer seus direitos para não ser explorado.


Os benefícios do estagiário são: bolsa, vale-transporte, férias de 30 dias e carga horária reduzida. Além disso, o trabalho deve ter propósito educacional. 

A duração máxima do horário de trabalho do estagiário é de seis horas diárias para estudantes de ensino superior, educação profissional e ensino médio. Ao estagiário de ensino especial e séries finais do ensino fundamental para jovens e adultos é garantido o horário máximo de quatro horas por dia. 

Se a empresa não respeitar as características de estágio e, o trabalhador exercer funções como se "empregado" fosse, empregado será considerado, com base no Princípio da Primazia da Realidade.

A partir do art. 9o da CLT*, o referido princípio aduz maior segurança ao trabalhador. Qualquer que seja a “roupagem” que tente esconder uma relação efetiva de emprego, a mesma será afastada. Se comprovado que empresa está mascarando uma relação de emprego – o que vai de encontro às leis trabalhistas – essa “roupagem” deverá ser desconsiderada e a relação de emprego regularizada será. Ou seja, a empresa que tentar mascarar uma relação de emprego, contratando “estagiários” fictícios, sofrerá todas as conseqüências da irregularidade e o empregado receberá todos os devidos direitos inerentes à relação de emprego.


* Art. 9º, CLT - Serão nulos de pleno direito os atos praticados com o objetivo de desvirtuar, impedir ou fraudar a aplicação dos preceitos contidos na presente Consolidação.



Vídeo do MPT - Ministério Público do Trabalho sobre o direito dos estagiários.






sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Opinião: extradição ou não de Cesare Battisti





É lamentável como a mídia tem se portado diante da última decisão do ex Presidente Lula com relação ao ex-militante comunista Cesare Battisti. Jornais e revistas têm legitimado, com seus comentários parciais, a pressão de uma Itália com "ranços" fascistas sobre a decisão de Lula, que é inatacável e fundamentou-se no exercício das competências constitucionais do Presidente.

A questão gira em torno do fato de Battisti ter cometido crimes comuns (o que autorizaria a extradição) ou políticos (o que a impediria). De toda sorte, passados trinta anos, os crimes já deveriam estar prescritos.

É importante considerar que tais crimes, à Battisti imputados, baseiam-se em relatórios policiais de uma Itália ditatorial, e que hoje é composta por um Executivo totalmente reacionário, comandado pelo Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, um pós-fascista envolvido em escândalos de corrupção, máfia, garotas de programa etc.. Daria para “desfiar um rosário” com falcatruas e irregularidades que circundam o governo italiano.

O empenho exacerbado da Itália nesse caso, muito provavelmente, tem como pano de fundo, o desvio das atenções para fatos muito mais relevantes que ocorrem no referido País. Os italianos precisam enfrentar graves problemas, como alto índice de desemprego, uma reforma na educação e cortes de gastos públicos. Tudo isso, ao final do ano passado, contribuíra para a falta de apoio e de credibilidade a Berlusconi. Então, estrategicamente, ao invés de tratar dos referidos problemas, direcionam todos os holofotes para o caso Battisti.

Além disso, bem se sabe que a justiça italiana é ultraconservadora e persegue Battisti por seus ideais políticos.

É fato que precisamos considerar as transações comerciais que o Brasil tem com a Itália e, seria interessante que elas prosperassem. O que acredito não serem prejudicadas baseando-se no posicionamento do então ex-presidente Lula.

Penso que a decisão do STF, em definir os crimes de Battisti como crimes comuns e autorizar a extradição, fora política e, simplesmente, fechara os olhos para o que de fato acontecera há trinta anos. Um período nefasto da história, onde pessoas eram cerceadas de sua liberdade de expressão e muitas delas, torturadas e subjugadas por um regime extremamente ditatorial.

Quem mais deveria respeitar os direitos humanos, princípios e mandamentos constitucionais (STF), não o fizera defendendo a tese de que Battisti cometera crimes comuns, não considerando todo o contexto da época.

Quando Lula decidira, em seu último dia de mandato, pela não extradição de Battisti, não desrespeitou a soberania da Itália, mas RESPEITOU nosso mandamento constitucional que determina a não extradição de estrangeiro por crime político ou de opinião. Além disso, existe em nosso ordenamento o princípio "in dubio por reo", ou seja, "na dúvida, a decisão deve ser a favor do réu". 


Homenagem a todos que lutaram e lutam contra o regime ditatorial: 
Para não dizer que eu não falei de flores - Geraldo Vandré









sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Esperança...


Estamos às vésperas do ano novo.
Nesse momento, tornamo-nos mais introspectivos e temos a oportunidade de avaliarmos tudo o que se passou no ano findo: os projetos iniciados ou terminados, as conquistas, as perdas, as decepções, as frustrações, os erros e acertos...

Por mais estressante ou desestimulante que 2010 tenha sido para alguns, é importante pensarmos que as situações desconfortáveis são oportunidades valiosas para a mudança. Quando há tranqüilidade nos acomodamos e preferimos não sair da zona de conforto, o que é um grande obstáculo para o novo, para o melhor. Então, temos que nos sentir agradecidos pelos “problemas”, pelos “desafios”...


O que fazer de diferente? O que pensar sobre o que pode vir a partir do novo ano?  O que ocorrerá no futuro que bate à porta?
Tudo o que possamos pensar agora, com relação ao futuro, são apenas suposições, expectativas, e principalmente, ESPERANÇA...
Esperança de um ano mais próspero, mais instigante, mais emocionante...

Mas não pensemos somente em nosso “próprio umbigo”. Muitas coisas positivas aconteceram no País esse ano e, portanto proponho: tenhamos esperança! Esperança de que criaturinhas como aquelas que ficam às portas dos supermercados pedindo esmolas, que os marginalizados, que as crianças e adultos explorados por aqueles que se guiam pela ganância... Que todos eles também tenham mais oportunidades, que tenham acesso a uma vida mais digna e mais feliz.
Bem sabemos que somente “esperança” não efetivará muitas coisas, mas já é um bom começo.

Então, nesse réveillon, ao invés de pular as 7 ondinhas, comer lentilhas, vestir roupa branca (talvez eu vista), escrever cartinhas para o anjo da guarda ou qualquer outra “mandinga” de ano novo, preencherei todo o meu ser de ESPERANÇA. 


sábado, 25 de dezembro de 2010

O Retrato do Trabalho Infantil no Brasil


Tanto a Constituição Federal quanto as Leis Ordinárias brasileiras são extremamente protetivas com relação ao trabalho do menor de idade.

Nossa Constituição Federal, em seu artigo 7º, inciso XXXIII proíbe expressamente o trabalho noturno, perigoso ou insalubre aos menores de dezoito e qualquer trabalho aos menores de dezesseis anos, salvo na condição de aprendiz, a partir de quatorze anos. O Estatuto da Criança e do Adolescente também confere a mesma proteção. A CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é permeada de dispositivos protetivos*.

Apesar de estarmos à frente das legislações de outros países, segundo a PENAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, ainda existem no Brasil cinco milhões de crianças e adolescentes trabalhando em situações ilegais.

De acordo com a OIT – Organização Internacional do Trabalho, no mundo há mais de 200 milhões de crianças trabalhadoras. Mais de 100 milhões estão nas piores formas de trabalho infantil.

A realidade é que mesmo com toda a legislação protecionista, a exploração do trabalho infantil é uma prática comum e, enquanto lemos esse artigo, inúmeras crianças estão sendo submetidas a atividades degradantes e de altíssimo risco, que comprometem profundamente o desenvolvimento psicológico e biológico de tais crianças. Muitas delas mal desenvolveram suas coordenações motoras e já são submetidas a atividades perigosas, manipulando ferramentas ou operando máquinas; outras são expostas a produtos químicos sem nenhum equipamento de proteção. As situações extremas ocasionam graves problemas de saúde, ameaçando assim, um dos direitos mais valiosos do ser humano, o direito à vida.

Vale dizer que outra forma “oculta” de exploração do trabalho infantil é o trabalho doméstico, em que crianças são afastadas de suas famílias e completamente cerceadas de qualquer possibilidade de estudar ou conviver em sociedade de maneira digna. Tais crianças compõem um “exército invisível” de mão de obra e são sujeitas não somente à exploração do trabalho. Muitas delas sofrem abusos de toda espécie e sequer têm consciência de que têm direitos e que não precisam submeter-se a tais abusos.

Há inúmeras medidas de tentativa de erradicação do trabalho infantil no Brasil. Além de se tentar aplicar a legislação, o Governo e ONGs nacionais e internacionais trabalham juntos no sentido de eliminar o trabalho infantil. Entretanto, as medidas são ineficientes e “tímidas”, tendo em vista o número expressivo de crianças submetidas à exploração.

Nesse sentido, o Brasil abarcou um dos programas da OIT, com o objetivo de erradicar o trabalho infantil em escala mundial: o IPEC – Programa Internacional para Eliminação do Trabalho Infantil. De acordo com a OIT, esse foi um dos programas que mais articulou, mobilizou e legitimou as iniciativas de combate ao trabalho infantil. A partir do IPEC, o Brasil tornou-se signatário de duas convenções de extrema relevância que versam sobre trabalho do menor: Convenção n.º 138, que trata da idade mínima para admissão a emprego e a Convenção n.º 182, que trata da proibição das piores formas de trabalho infantil e da ação imediata para sua eliminação.

A fim de assumir os compromissos determinados pelas convenções supracitadas, o MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) instituiu a CONAETI (Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil), com o objetivo prioritário de viabilizar o Plano Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil.

Entretanto, de acordo com o próprio MTE, o monitoramento, avaliação, controle e fiscalização para a prevenção e erradicação do trabalho infantil são ineficientes. As crianças identificadas e resgatadas pela Fiscalização do Trabalho e pelo MPT (Ministério Público do Trabalho) não são atendidas a contento e antes mesmo de serem integradas pelos programas do governo voltam ao trabalho. Além disso, os mecanismos de fiscalização são insuficientes quantitativa e qualitativamente devido à alta demanda existente. Os recursos disponíveis também são limitados para o desempenho das funções da Fiscalização do Trabalho e do MPT, principalmente com relação aos locais distantes das capitais brasileiras: número insuficiente de auditores-fiscais do trabalho, de promotores do trabalho e de servidores administrativos que fiscalizem o trabalho infantil, além de poucos recursos financeiros para apoio de tais servidores.

Outro problema encontrado quanto à fiscalização e resgate de tais crianças está na (re) inserção social, já que normalmente, são crianças que se encontram em profunda desigualdade social e vivendo em extrema miséria. Inseri-las em uma realidade distinta, em que haja condições mínimas de se viver dignamente não é uma tarefa fácil, muito menos, rápida. É preciso fornecer moradia àquelas que não a tem, alimentação, saúde, educação dentre tantos outros direitos básicos ao ser humano. Além disso, é fundamental que haja projetos e planos que atendam não somente às crianças, mas que contemple também os jovens e adultos das famílias das crianças trabalhadoras.

Diante do exposto, é necessário refletirmos sobre os diversos aspectos que deveriam ser repensados na sociedade. Para que haja maior mobilização por parte do Estado a fim de que órgãos e entidades envolvidas tenham condições mais favoráveis de desempenhar suas funções no sentido de erradicar a exploração do trabalho infantil, punir os responsáveis e inserir essas crianças na sociedade de maneira digna é preciso que haja maior pressão por parte da sociedade. Não basta nos indignarmos e ficarmos praguejando o governo ou os exploradores.

É possível constatarmos que não há mobilização social no sentido de prevenir, denunciar ou combater a exploração do trabalho infantil. Se há, é inexpressiva. Não há pressão do Estado sobre a mídia com relação à divulgação desse problema social gravíssimo e, sendo assim, o esforço dos meios de comunicação é quase nulo. De quem seria a culpa? Provavelmente, nossa. Ao silenciarmos, nós acatamos e aceitamos a situação. É fácil identificarmos a exploração de uma criança e o silêncio pode ser entendido como um pacto com o explorador. É preciso denunciar e reclamar ao Estado para que haja maior efetividade em suas ações e assim, garantir a esses pequenos o direito a uma vida digna. 


Fontes e contatos para denúncia e/ou informações:

Órgão/Entidade
Site
Contato
MTE – Ministério do Trabalho
e Emprego

Através da ouvidoria no
próprio site.
FNPETI – Fórum Nacional de
Prevenção e Erradicação do
Trabalho Infantil
Qualquer pessoa, de qualquer parte do país, pode ligar gratuitamente, discando o número 100.
MPT – Ministério Público do Trabalho
Denúncias através do próprio Site, em “Serviços”, no link: “Denúncia”.
OIT – Organização Internacional do Trabalho



* Alguns dispositivos da CLT que tratam do trabalho do menor: art. 403, parágrafo único; art. 405, § 2º; art. 407 e parágrafo único; art. 408; art. 413; art. 439; art. 440; art. 426; art. 427 e parágrafo único.






quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Filhos do Mundo



Em um belo final de tarde, o céu assemelhava-se a uma tela de Monet. O “céu de baunilha” apresentava um matiz deslumbrante, com nuvens levemente lilases e nuances mais fortes de laranja vibrante. Na beira-mar não havia o nosso famoso vento nordeste, o que permitiu que nossas águas exibissem seus tons esverdeados.

O bem-estar proporcionado por esse cenário se desfez em uma fração de segundos quando um menino surgiu na faixa de pedestres, com duas bolas que mal se equilibravam em suas mãozinhas. Com seus, mais ou menos, oito anos de idade, tentava fazer uma apresentação de malabarismo. Usava uma veste maltrapilha e suja, calçava chinelo de dedo e seu olhar, seu olhar... Ele não olhava para os carros, ou para quem estava dentro deles. Olhava para as bolinhas, concentrado tentava não deixá-las cair. O contexto e o olhar tristonho denunciavam o abismo social no qual estava inserido.

Será que quem estava dentro dos carros “olhava” para ele? Talvez alguns olhassem, mas não o enxergavam. A alienação é cômoda e representa um refrigério ao ser social imerso em um mundo particular, onde o primordial é vencer e exibir troféus aos seus pares.

Ingênuos são os que pensam que passaremos imunes a essa cegueira social e porque não dizer, moral.

É fácil justificar o comportamento apático e neutro. Quem não tem uma rotina apressada, desenfreada e afundada em preocupações... A vida moderna nos exige um comportamento quase indiferente a tudo e a todos. Estamos tão voltados para os nossos interesses, nossos objetivos, nosso futuro, que deixamos de vivenciar o “hoje” e mal reparamos em “quem” passa por nós. Esse “quem” se refere a alguém, a uma pessoa, a um ser humano.

Aquele menino da faixa de pedestres é conhecido por todos nós, tenho certeza. Mas será que ainda há quem não o reconheça? Será que ninguém sabe que o pai dele é o mundo? Sim, ele é um dos filhos do mundo. Provavelmente seus “pais” biológicos também o foram... E, por não entenderem o significado da palavra “pai/mãe”, deixam que o Grande Pai – Mundo – cuide dele.

Provavelmente, as míseras moedinhas que esses filhos do mundo conseguem arrecadar nas ruas sustentam famílias em detrimento da infância. O que seria mais importante? Sobreviver ou estudar e brincar?

Ignorância à parte, bem sabemos que a exploração do trabalho infantil é uma realidade. No mundo inteiro crianças são cerceadas de uma infância saudável, tranqüila e de oportunidades. Milhares delas são vistas diariamente nas ruas, vendendo balas ou bugigangas, engraxando sapatos, vigiando carros ou fazendo algum trabalho “artístico”, para não mencionar aquelas envolvidas em atividades ilícitas, como o tráfico de drogas. Há ainda as que são subjugadas por exploradores, sucumbindo em uma sobrevida de escravidão, servidão por dívida, trabalho forçado ou prostituição.

Nesse contexto, tais crianças são submetidas a situações extremas de vulnerabilidade e expostas a riscos infindáveis, não apenas à saúde biológica como também psíquica. Inúmeras são as situações desumanas com as quais meninos e meninas lidam diariamente, sem nenhuma possibilidade de lutar contra a tirania de alguns.

Nesse contexto, proponho: que tal sairmos um pouco de nosso mundinho particular e começarmos a observar o externo?



Obra de Arte: Ellenice Silveira